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Construir a esperança

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 25.02.14

Por mais sombrio que o presente e o futuro nos pareça, ver a realidade nua e crua é o primeiro passo para construir a esperança. É que não se pode construir a esperança sobre ilusões.

 

A esperança implica vitalidade, acção, movimento, mudança. Podemos visualizar um determinado cenário que queremos concretizar, mas se não iniciarmos um qualquer percurso que nos aproxime desse cenário, a esperança enfraquece.

 

A esperança é mais dinâmica quando lembrada, alimentada, partilhada. É como um exercício diário, um teste à nossa paciência. Por isso, a esperança respira melhor na interacção social

 

A esperança que podemos construir depende de um debate sério na sociedade civil, uma vez que da lógica partidária pouco podemos esperar a não ser a feira das ilusões. Alguns conseguem desmontar algumas dessas ilusões, mas já não conseguem sair da cultura do seu grupo de referência. A esperança depende de uma informação de qualidade, fidedigna, científica digamos assim, e incluo aqui as ciências sociais. 

 

Para os cidadãos e as suas vidas, este período de tempo limitado ANTES das eleições europeias é uma oportunidade única para um debate sério sobre o país que queremos a partir daqui. Não é a partir da saída da troika, pois a troika vai manter-se cá através do governo-troika, é a partir das eleições europeias.

 

 

As consequências do ajustamento são hoje fáceis de avaliar: austeridade para pobres, prosperidade para ricos. Afinal o que é que foi ajustado? Isso mesmo. Trabalho, pensões, acesso/qualidade do serviço público e prestações sociais. Quanto aos próprios políticos, incluindo os partidos, o parlamento, a administração pública central e local, não foram ajustados. E os grandes grupos económicos e a finança, também não.

As lideranças políticas que repetem agora até à exaustão que têm a legitimidade dos votos, distanciaram-se tanto do país e dos cidadãos que já não os representam, nem o país nem os cidadãos. Além disso, qualquer contrato que tenham feito com os eleitores já foi ignorado e traído vezes sem conta.

Mas os cidadãos ainda foram duplamente humilhados: quando se depararam nas televisões com o auto-elogio governamental e quando os tentaram iludir sobre a solidariedade europeia do empréstimo, os benefícios do ajustamento, e ainda quando lhes acenaram com a taxa de natalidade.

Triplamente humilhados se pensarmos na propaganda eleitoral europeia: act, react, impact. Reparem que apesar da devastação social e económica que a austeridade deixa atrás de si, insistem na mesma lógica. E o BCE ainda tem lucros com os empréstimos da solidariedade europeia... A propaganda eleitoral europeia é pueril e até perversa, e corresponde a uma ilusão. Desta vez é diferente, é o que o agressor doméstico compulsivo diz ao agredido: prometo que nunca mais te bato. Além de se ter distanciado dos cidadãos, a Europa das estrelinhas não deu o exemplo da fórmula de rigor que aplica aos países membros em apuros, é uma máquina pesada e mesmo extravaganteEsta Europa que se desviou do projecto inicial já não representa os cidadãos europeus. A esperança só pode estar numa Europa dos cidadãos. 

 

 

 

Temos, pois, de desmontar as ilusões que nos vendem uma a uma nas televisões:

 

1 - Não há saída da troika: a única diferença é que em vez das visitas periódicas, teremos uma monitorização à distância que ainda pode ser bem pior. O governo-troika irá continuar a razia dos cortes no trabalho, pensões, prestação de serviço público, prestações sociais, a que chamará ajustamento e rigor. De fora continuarão aqueles que não foram beliscados com a austeridade e, pasme-se, que até prosperaram com a desgraça dos seus conterrâneos.

 

2 - A esperança de uma vida com dignidade e qualidade não é possível com este governo e esta UE: a única oportunidade de construir alguma esperança para os cidadãos e as suas vidas é AGORA, como tenho insistido, ANTES das eleições europeias. Depois cai-nos em cima a lógica da austeridade e do ajustamento, que significa trabalho mal pago, trabalho precário, trabalho à hora, ia dizer à jorna, como em tempos idos. Os mais velhos continuarão a ver as suas reformas reduzidas, a ter dificuldade em comprar medicamentos e em manter condições básicas de dignidade. A emigração continuará a ser a única saída para jovens e menos jovens, qualificados e menos qualificados.

 

3 - A nossa recuperação económica só se pode concretizar e estabilizar com uma mudança da lógica europeia: não será com a união bancária, fiscal e política, como nos prometem, será precisamente com a flexibilidade de acordos económicos, flexibilidade fiscal e relativa autonomia política. A lógica inversa, precisamente. Quem julga que muda alguma coisa com a reciclagem da troika, isto é, o FME em vez do FMI, pense duas vezes. A cultura de base desta Europa desvirtuada e distante dos cidadãos mudou? A lógica que preside actualmente nesta Europa, em que os países mais fortes decidem sobre o destino dos mais fracos, que falhou na prevenção da crise financeira, que falhou na supervisão bancária, que falhou no controle das fugas fiscais, que falhou na intervenção aos países membros em dificuldades, acham mesmo que mudou? Que desta vez vai ser diferente?

 

 

Aqui ficam alguns vídeos a que juntarei outros vídeos que vou descobrindo no Youtube, neste período fundamental até às próximas eleições europeias:

 

 

 

 

 ...

 

 

A esperança também se constrói pela percepção de alguma capacidade de intervenção (empowerment) e de prevenção de situações que colocam em risco a vida e o futuro. Ora, neste momento, as pessoas sentem-se precisamente despojadas de todos os mecanismos de intervenção e de prevenção, sem qualquer poder sobre as suas próprias vidas e o seu futuro, sem vislumbrar sequer uma garantia de que a sua vida não vai piorar. 

 

Os princípios e valores (dimensão cultural) que lhes tinham sido vendidos pela democracia nacional e pela Europa moderna, foram sendo traídos, ignorados e até desprezados, perante os seus olhos incrédulos. Assistiu-se nas televisões à revolta dos gregos na praça Sintagma, e em vez da empatia com o seu desespero e impotência, divulgou-se na comunicação social o lado dos erros da gestão pública, o lado dos credores, o lado do poder. E no entanto, todos sabem que os gregos ricos escapam aos impostos. Quem foi ajustado violentamente? As populações indefesas. Esta é a realidade. Também vimos os nuestros hermanos nas ruas de Madrid, também sentimos o seu desespero, mas quem foi resgatado foram os bancos. Já viram alguém ser responsabilizado pela ausência de supervisão bancaria? Ou por se permitir a grande fuga e fraude fiscal no coração da Europa?

 

Há muitas formas de violência, física e psicológica. A austeridade aplicada às pessoas, às suas vidas, é uma forma de violência, física e psicológica. Se as pessoas tivessem observado uma qualquer racionalidade, equidade e legitimidade nas iniciativas que as foram despojando de qualidade de vida e de autonomia, a esperança ainda teria sido possível. Mas as pessoas perceberam que tinham sido enganadas, havia uma minoria que escapara à garra violenta da austeridade e que até prosperara com a desgraça da maioria. Também perceberam que, além desta desigualdade e injustiça, os objectivos da austeridade não eram a redução da dívida, do défice, e o ajustamento do estado na parte que deveria ser ajustada (reforma do estado), mas sim o ajustamento das vidas da maioria, o seu empobrecimento e a desvalorização progressiva do trabalho. Ora, isto é inadmissível numa democracia de qualidade.

 

Quando agora emergem à superfície os casos de violência doméstica, violência nas escolas, violência nas universidades, a avaliação deve ser feita em termos abrangentes e numa perspectiva cultural. Esta violência não é apenas potenciada pela austeridade, a violência é a sua própria marca, faz parte da sua cultura.

 

A prevenção de situações como as que actualmente nos condicionam e oprimem, só pode ser obtida com a avaliação dos resultados da intervenção das instâncias internacionais e europeias, e dos governos nacionais. Sem esta responsabilização a esperança no futuro fica comprometida. Estamos entalados na Europa das estrelinhas e se a sua cultura não mudar, se os princípios e valores que a fundaram não forem reabilitados, situações como a que actualmente vivemos voltarão a ocorrer e tenderão a piorar.

 

Mas não se trata apenas de avaliar os resultados da intervenção dos gestores políticos e financeiros, trata-se de prevenir de forma mais profunda, os riscos de violência futura: se propomos uma selecção profissional cuidadosa para qualquer actividade com alguma responsabilidade, mais cuidado se exige a um perfil profissional cuja intervenção irá afectar milhares e milhões de pessoas. E este cuidado não se deve ficar apenas pelas dimensões profissionais, mas também pela sua personalidade. Esta ausência de empatia que vemos generalizar-se nas lideranças políticas e financeiras e a sua colagem ao poder que é identificado com o sucesso, devia alertar-nos como comunidade, porque é um sinal de alarme. 

 

 

 ...

  

Como referi logo no início, para construir a esperança é necessário perceber a realidade em que vivemos e o seu contexto, numa perspectiva o mais objectiva possível, e por isso convoquei as ciências sociais. A psicologia e a psicologia social, a sociologia, e mesmo as neurociências, podem ajudar-nos a compreeender a lógica deste ajustamento social da austeridade, e como foi possível efectuá-lo de forma drástica e violenta, e como, tendo-se verificado ser contraproducente, portanto, ineficaz e até prejudicial, continua activo como um plano sem qualquer avaliação e responsabilização das lideranças que o promoveram e aplicaram.

 

A parte mais perversa da lógica da austeridade é: 

 

- a sua apresentação como benéfica, um remédio, quando na verdade, é um veneno que mata, por mais contrariadas que as lideranças que a defendem fiquem com esta frase. Além de matar fisicamente, a austeridade mata psicologicamente. Quando se instala o medo, a insegurança, a instabilidade, o desalento, a apatia, a esperança enfraquece e pode mesmo desaparecer.

 

- a austeridade foi-nos apresentada por lideranças que se apresentaram como o nosso médico, e os credores como benfeitores, a generosidade europeiaé um favor que nos fazem, pois a sua aplicação leva-as a fazer o sacrifício político de a aplicar, o que muito lhes custa...

 

- e agora um suspense... depois de muito trabalho e determinação da sua parte, a nossa situação mudou, mudou-se a página, a parte pior já passou, para poderem dizer que... valeu a pena.

 

- o que nos leva à parte mais perversa da austeridade: para a poderem defender, as lideranças têm de negar a realidade e o seu contexto, e apresentar, em sua substituição, a sua versão da realidade onde a austeridade se adapta. Têm, igualmente, de mentir sobre o futuro, pois a lógica da austeridade, não sendo viável não tem fim, é para permanecer como nova normalidade para a vida das populações, isto é, para a vida concreta das pessoas é sempre a descer mesmo que os gráficos estejam a subir.

 

 

A esperança é uma fonte de vitalidade e de acção virada para o futuro. É incompatível com um ambiente de falta de confiança na orientação que é proposta a uma comunidade, de ausência de expectativas fiáveis e de instabilidade constante. Esta instabilidade é provocada pelas lideranças que alteram as regras do jogo a toda a hora, para adaptarem a realidade à austeridade que, como vimos, não tem fim. O desespero levará à revolta, o que agravará a instabilidade.

 

Esta Europa das estrelinhas tinha instrumentos para resolver as diversas situações em que alguns países-membros se encontraram, mas escolheu aproveitar a oportunidade para fazer o ajustamento social com que provavelmente as suas lideranças sonhavam há muito:

- acabar com o serviço público de qualidade que consideravam um luxo muito caro;

- empurrar a classe média para baixo, pois é fonte de dores de cabeça quando reclama democracia;

- promover a aplicação e banalização da violência sobre populações inteiras e insistir nesse caminho.

 

 

Desta vez escolhi 3 vídeos relativos à América mas que respondem às mesmas grandes questões e grandes desafios que enfrentamos como país entalado na Europa das estrelinhas:

 

 

 
 
 

 

 

 ...

  

E pronto, penso que já referi o essencial sobre a nossa situação actual. Para finalizar como nos filmes, deixo aqui a lista dos principais representantes da marca Austeridade para pobres, prosperidade para ricos, primeiro o grupo internacional e depois o grupo nacional (preparei aqui algumas surpresas).

 

Grupo internacional da marca: Christine Lagarde; Durão Barroso; Olli Rehn; BCE; Eurogroup. 

 
Grupo nacional da marca: Os que melhor a representaram foram Vitor Gaspar e Passos Coelho, secundados por Maria Luís Albuquerque e Paulo Portas.
Mas não podemos esquecer que esta marca já tinha sido iniciada pelo anterior PM e os seus ministros das Finanças e da Economia: Teixeira dos Santos e Manuel Pinho, que não tiveram oportunidade de a implementar.
O privilégio de a implementar com toda a sua violência (para quem gosta de bater no mais fraco) acabou por ser dado ao par PSD-CDS.
 
Quem tiver a paciência de acompanhar os posts que aqui deixei, vai poder refrescar a memória ANTES de votar nas próximas eleições europeias.
Pense bem: quer continuar a levar pancada ou quer libertar-se desta praxe violenta sobre os portugueses?
É que se a Europa descobriu que as mulheres são um alvo fácil - violência doméstica e no trabalho -, os portugueses pobres,  os remediados e os que eram da classe média foram um alvo apetecível para esta marca violenta "Austeridade para pobres, prosperidade para ricos": 9 em cada 10 portugueses já levou pancada deste governo (impostos, cortes vários em salários e pensões sob falsos pretextos, desemprego, emigração, etc.) tendo parte destes portugueses, porque são sempre os mais frágeis, já levado umas traulitadas do anterior governo (impostos, desemprego, emigração, cortes de subsídios como o abono de família e os de portadores de deficiência; perseguição da ASAE aos feirantes, etc.).
 
 
Portanto, a marca já vinha de trás, é uma cultura praxista que já estava a emergir. Por vezes, visualizo a alegria pueril de Manuel Pinho e o seu sonho acalentado e finalmente concretizado, dos salários baixos... Ah, como era bom governar a desorçamentar e a fazer negócios futuristas apresentados em powerpoint... não ter de interagir com o povo que só serve para trabalhar, pagar impostos e votar de 4 em 4 anos...
Francisco Assis terá de se esforçar muitíssimo se quer vender a sua Europa ao centro e ao centro direita que tem princípios e valores democráticos, pois a marca do anterior governo PS não era amiga da democracia, distanciou-se dos cidadãos, acentuou as desigualdades sociais, iniciou a desertificação do interior do país, ignorou a supervisão bancária, escolheu proteger os bancos e os grandes grupos económicos, etc. e foi igualmente um bom aluno de Bruxelas.
 
A cultura narcisista foi-se implantando em Portugal: tudo pela imagem, nada pela vida concreta das pessoas. Desde que fique bem nos gráficos e nas estatísticas, o resto não interessa.
 
 
 
 
 
 
 

publicado às 23:07

O que os cidadãos vêem como falhanço completo, o governo-troika e os troikanos vêem como sucesso. Já o ex-PM recorria ao Financial Times para promover a sua determinação, lembram-se? Qual a credibilidade dessas manobras? Nenhuma.

Entretanto, ainda tivemos o regresso do Ajustador reabilitado por um livro, de forma a conseguir uma carta de recomendação do Líder Reformador (palavras suas de lealdade canina) para ser catapultado à alta finança internacional.

Ontem, enquanto seguíamos as notícias preocupantes da Ucrânia, tivemos de assistir a recortes de uma conferência do Economist com partes da exposição da ministra das finanças satirizando sobre a lentidão do discurso do seu antecessor e partes do discurso do vice-primeiro ministro personificando o 8º marido de Zzá Zzá Gabor. Este é o nível do filme.

Mas o filme de terror O Ajustamento aí está para ficar. Foi o que veio dizer um troikano do FMI, contrariando a tal recuperação económica publicitada pelo governo-troika.

 

 

O falhanço é de todos:

 

- governo-troika: escolheram seguir o guião do filme dos troikanos mas foram ALÉM do guião. É por isso que até agora não houve ajustamento nem reformas, logo o Líder Reformador e o Ajustador são personagens de ficção. O que houve foi aumento de impostos e cortes de salários e pensões. Agora o troikano do FMI vem questionar o que faltou fazer, mas aposto e os meus conterrâneos também, que continuarão a escolher sacrificar o trabalho e as reformas antes de tocar na grande fuga e fraude fiscal, nos grandes grupos económicos, na finança, nas fundações, nos institutos e organismos duplicados da administração central, na redução de câmaras municipais e reposição das juntas de freguesia, na assembleia da república e o nº de deputados, enfim, as excepções próprias de uma cultura corporativa. Entretanto perderam a confiança dos cidadãos, pelo que se prevê péssimos resultados nas europeias e nas legislativas, independentemente da sua propaganda eleitoral. 

 

- troikanos: o seu objectivo era claro desde o início, pôr-nos a arder em lume brando, empobrecer o país, transferir os recursos gradualmente do sector público para o sector privado, colocar-nos no lugar certo relativamente aos restantes estados-membros da UE, os da 3ª região, a do turismo e lazer, é para isso que servimos.

 

- Europa das estrelinhas: não foi apenas connosco que falharam, foi com a Grécia, a Irlanda, a Espanha. É claro que ao não assumir o desvio do projecto europeu inicial e ao desvirtuar a democracia implícita nesse projecto, a UE perdeu a credibilidade e a legitimidade. A Europa das estrelinhas é uma enorme agência de negociatas ocultas e duvidosas que se alimenta dos recursos estratégicos, do trabalho dos cidadãos a quem retirou já praticamente a qualidade de vida (um direito que era considerado universal), e mesmo do nível de desemprego, essencial para manter baixos salários e perda sistemática de poder de negociação.

 

É neste cenário de terror, neste double bind (beco sem saída) que nos encontramos hoje: o governo-troika continuará a proteger os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros e a sua implantação partidária na administração central e local, logo irá cortar no trabalho e nas reformas. Poderá disfarçar com um ou outro exemplo inócuo para ludibriar os cidadãos mais ingénuos ou papaguear que herdou uma dívida astronómica, que os mercados já não nos emprestavam dinheiro, blá blá blá... ou continuará o auto-elogio repugnante de que o ex-PM também era perito. Essa converseta medíocre do marketing político já não cola. A questão é outra, a lógica é outra, e já todos perceberam.

Portanto, deste governo-troika não há nada a esperar.

 

Mas eis que o nosso double bind (beco sem saída) se estreita ainda mais: a própria lógica partidária e a lei eleitoral já não servem a possibilidade da composição de um governo credível e uma gestão adequada dos recursos colectivos. Também perderam a confiança dos cidadãos enquanto eleitores. Prevê-se um aumento da abstenção e do voto em branco, assim como o emergir de movimentos cívicos.

 

Temos, pois, esta janela pequena de tempo ANTES das eleições europeias para reflectir no nosso futuro como país. DEPOIS das eleições, seremos esquecidos, ignorados, humilhados e devidamente reposicionados na condição de país de 3ª categoria. Vai uma apostinha? Nós somos as praias ocidentais, as cidades acolhedoras, a gastronomia, para turistas ricos do norte e centro. As zonas de influência estarão no centro e no norte. De nós apenas continuarão a acolher os nossos melhores recursos humanos e os nossos melhores produtos.

 

E no entanto... o país que eu visalizo não é periférico é estratégico, não é o da cultura corporativa mas o da cultura da colaboração, não é pobre tem qualidade de vida, não é triste é dinâmico, não é desencantado é criativoNão é gerido por estes partidos que nos trouxeram até aqui, nem pela sua lógica de séc. XIX, nem pela sua cultura de trincheira, nem pela estratégia de influência.

As lideranças que visualizo são inteligentes, têm ética, colaboram em rede, abrem-se à participação dos cidadãos, gerem os recursos de forma equilibrada e saudável, promovem a qualidade de vida. Creio é que não será na minha geração.

 

 

Portanto, o que ficou pelo caminho? A democracia, as condições de trabalho, a esperança de uma vida melhor. Tudo o que a revolução dos cravos prometia.  Aí está o resultado, depois do gonçalvismo, do soarismo, do cavaquismo, do guterrismo, do socratismo e do troikismo (saltei a AD de Sá Carneiro; Durão Barroso que abandonou o barco; e Santana Lopes que nem aqueceu a cadeira). Interessante será ver como se vai festejar uma data, e já lá vão 40 anos, e apresentar este triste resultado: a neocolonização internacional. Concluo, pois, que tinha razão ao considerar que estamos pior do que na primavera marcelista, não fosse evidentemente a polícia política e a guerra colonial. Mas estávamos virados para o futuro, havia esperança no ar que iríamos evoluir progressiva e pacificamente para uma democracia de qualidade. 

 

 

 

publicado às 16:05

Idolatram-se objectos, ignoram-se pessoas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.02.14

Desde 5ª feira passada, que tenho recolhido e registado episódios significativos e reveladores da nossa situação precária devido à arrogância dos gestores políticos, a cortes desnecessários e ilegítimos por razões eleitorais, ao aventureirismo arriscado que penalizará duplamente as pessoas sacrificadas. Uma saída à irlandesa? Alguém perguntou aos cidadãos o que pensam sobre isso? Retirar-lhes o essencial para arriscar na recuperação económica, que todos já sabemos ser uma mentira? Por incrível que pareça, governo e PS estão juntos neste desvario. Apenas o Presidente, Freitas do Amaral, Manuela Ferreira Leite e Medina Carreira consideram isto um desastre.

 

Mas os episódios não se ficam por aqui. Hoje ocorreu uma cena à 007 do episódio da série PS cultural "salvar os quadros de Miró". Se o PS julga que vai cativar o eleitorado dando protagonismo ou tempo de antena às personagens pueris que antecederam este governo, está muito enganado. Afinal, é o mesmo PS pueril de há 3 anos que aqui nos surge na televisão, com ar solene e pesaroso, como se tivesse acabado de salvar a vida dos portugueses. E o que entendem estas personagens cultas sobre cultura? O turismo cultural, o turismo de museu. Nisso, até não são muito diferentes das personagens actualmente no governo, para quem cultura é dinheiro. Mas para os contribuintes que estão a pagar o buraco do BPN, a venda dos quadros surge como uma operação lógica e legítima, muito mais lógica e legítima do que financiar fundações e alimentar assessores a mais e deputados a mais.

 

Mas eis que o PS cultural não está sozinho nesta defesa dos quadros de Miró! A esquerda está em peso neste episódio. Para a esquerda, os quadros - objectos com um valor mercantil no mercado da arte -, são uma prioridade. São a cultura do país num país também idealizado como o do turismo de museu. Cultura para eles é tão-somente a dos museus e das exposições, a dos objectos e dos postais, bonés, t-shirts. É assim também que vêem o país pós-troika, o do turismo cultural, tal como a Grécia e a Itália. 

 

Cultura é muito mais do que a dos museus, das exposições, das bibliotecas, das ruínas, das ruas citadinas, do fado, da gastronomia. Cultura é a interacção pessoas-pessoas, pessoas-espaços, pessoas-objectos. Cultura são as ideias, a criatividade. A cultura é vida, não está fechada.

Hoje, as tecnologias permitem-nos viajar pelos museus e ver os objectos, ler a sua história, a interpretação, o contexto histórico e social. O objecto multiplicou-se, tornou-se acessível. Só uma cultura do objecto, que idolatra o objecto e o valoriza no mercado das "coisas", é que a posse do objecto em si se torna prioritária.

Prioritário? Dou um exemplo de um outro episódio que aconteceu no sábado: o jovem que, depois de um acidente de viação, foi transportado de ambulância 400 KM, e só na parte final de helicóptero, para ter acesso a um neurocirurgião.

 

 

 

Nota 1 (no dia seguinte): Este é o post que finaliza mais um episódio da série Vozes_Dissonantes, isto é, vou ter de fazer mais um intervalo. É que observar e analisar o que se passa actualmente no país, sobretudo na sua dimensão cultural, provoca-me alergias. Digamos que não faz bem à saúde. E porque escolho escrever-vos em Notas soltas, em vez de abrir outro post? Porque quero que o título deste post fique a piscar em sinal de alarme: idolatram-se objectos, ignoram-se pessoas. Esta é a cultura dominante, a cultura do objecto, a impregnar e a contaminar as interacções sociais.

 

Nota 2 (2 dias depois): Hoje é essencialmente para deixar aqui alguns links sobre a Europa, a cultura dos partidos políticos actuais, os mecanismos democráticos que ainda existem mas que não se têm revelado eficazes, essencialmente uma nota virada para a acção e para o futuro.

Não estamos condenados ao país pós-troika que nos estão a preparar. Não estamos condenados à Europa que nos estão a preparar.

Para sairmos deste ciclo vicioso em que os sucessivos governos, bons alunos de Bruxelas, nos colocaram, desta cultura corporativa que nos condiciona a financiar grupos que prosperam, apropriação dos recursos estratégicos, negócios, fuga ao fisco e fraude fiscal, fundações, deputados a mais, assessores a mais, tudo o que já sabemos de cor e salteado, temos de ser muito mais criativos e participativos, em comunidades criativas reais e virtuais.

Desejo a todos os Viajantes que por aqui passam boa sorte (circunstâncias favoráveis) e muita inspiração (criatividade).

 

Nota 3: retirei o parágrafo da Nota 1 em que me refiro à reposição dos cortes nas reforma dos ex-funcinários do Banco de Portugal. No meio de tantas excepções, esta regra do BdP depender directamente do BCE etc. e tal não me deveria sequer perturbar.

Também resolvi arrumar a casa, retirar os posts com já não me identifico e/ou que fogem ao tema central do Vozes_Dissonantes, uma reflexão sobre a política caseira e a cultura dominante no país.

E para terminar mais este episódio desta saga portucalense, pensei num filme:

 

 

 

 Este filme que revela a importância da colaboração na organização da vida, de uma família, de uma comunidade, de um lugar, e iguamente a importância do papel estruturante das mulheres nessa organização, reflecte mais um futuro possível para o país do que a cultura actual do país.

Ainda temos um percurso enorme à nossa frente, o país ainda é essencialmente masculino, do poder do mais forte sobre o mais fraco, a lógica do pavão, do capataz e do conformista. 

O sorteio das facturas é a metáfora perfeita desta cultura dominante, e revela a continuidade não apenas de governos anteriores PS e o actual PSD-CDS, mas também de tempos que julgávamos ultrapassados. Mas eis que a cultura permanece incólume, e quem sabe ainda mais reforçada.

 

 

 

publicado às 22:17

A divisão artificial entre euro-adeptos e euro-cépticos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.02.14

 

A Europa da democracia só existe na cabeça de Paulo Rangel. 

De que Europa estamos a falar?

É por tudo isso que a divisão entre euro-adeptos e euro-cépticos é artificial. Há é cidadãos que não querem a Europa desenhada pelos tecnocratas e que nos querem impor. Claro que, para ser vendável, a ideia de Europa que nos apresentam é democrática, dos cidadãos, vem com um seguro financeiro que nos protege, vai haver justiça fiscal, blá, blá blá...

 

A Europa por detrás desse marketing é a Europa deles, não é a nossa Europa. Nós já vimos até onde estes tecnocratas são capazes de ir para manter a organização corporativa: colocar países na pobreza, destruir-lhes a economia, atirá-los para uma estagnação com tendência para um declínio, a apropriação dos seus recursos, retirar-lhes todas as possibilidades de recuperar a economia, anular todas as expectativas legítimas de uma qualidade de vida digna. A "nova normalidade" é isso mesmo.

 

O exemplo de marketing político tecnocrata que escolhi é a entrevista de Maria Flor Pedroso a Paulo Rangel pois reflecte na perfeição o discurso-narrativa-perspectiva que já não convence.

E não convence apenas porque a palavra dos políticos deixou de nos merecer credibilidade, é mais do que isso. Não convence porque está completamente desactualizado, virado para o passado, não tem futuro.

É uma perspectiva que se quer sobrepor à nossa realidade actual mas que não cola, fica apenas a tentar esconder tudo o que diz respeito às pessoas concretas e às suas vidas.

Também não convence porque se percebe que esta "nova ordem" e "nova normalidade" subliminares, e que entram na lógica da "globalização", da "competitividade" e do federalismo, só servem alguns grupos económicos, pois contrariam e destroem as expectativas legítimas dos cidadãos europeus, a qualidade de vida compatível com o seu trabalho.

 

Já todos percebemos o que este mimetismo político-tecnocrata implica nas vidas das pessoas concretas, já percebemos o que quer dizer:

- a aceitação da "globalização" como natural e inevitável implica a lógica da tal "competitividade" económica baseada na desvalorização do trabalho;

- para que este modelo económico e financeiro seja viável, isto é, a apropriação corporativa dos recursos que são limitados, é preciso obter o controle das regras do jogo, e aqui temos a concentração do poder político em grandes blocos de que a Europa seria um deles, com a união bancária, a união fiscal e a união política;

- a cultura do objecto, isto é, a cultura em que tudo é valorizado materialmente, já aí está a impregnar a interacção social e a informação mediática, e é a negação da cultura democrática, do valor intrínseco de cada indivíduo. 

 

A escolha da entrevista a Paulo Rangel, como exemplo de marketing político tecnocrata, serve ainda para demonstrar a aparente mutação cultural dos políticos. Paulo Rangel era, se bem se lembram, o da moção "Libertar o Futuro" e revelava alguma frescura e vitalidade. Hoje vemo-lo a mimetizar outros políticos da estratosfera europeia e mundial, no discurso e na imagem, e a frescura e vitalidade desapareceram.

Será possível uma mutação nos genes essenciais da cultura democrática, o gene da liberdade, o gene da empatia, o gene da responsabilidade, o gene da autonomia, só pela interacção com grupos tecnocratas europeus e internacionais? Não creio. Uma vez adquirida e interiorizada a cultura democrática, fica para a vida, há uma imunidade à cultura do objecto e à divisão social por estratos de rendimento e poder.

 

É interessante, até do ponto de vista psicossociológico, estudar a reacção do entrevistado a certas perguntas certeiras de Maria Flor Pedroso. Gostei da pergunta: será que o Paulo Rangel 2011 está de acordo com o Paulo Rangel 2014?

 

Surpreendentemente, políticos como Paulo Rangel parecem igualmente alheados da realidade, mesmo em relação a um prazo que julgam que o país dos cidadãos lhes vai dar ainda. Não perceberam que o país já atingiu o limite da tolerância.

Também surpreendente a sua convicção de que poderão continuar a enganar os cidadãos e a cortar nas suas vidas. Já perderam essa legitimidade.

Portanto, já estamos na dimensão do poder alucinado. O país dos cidadãos já não lhes confia o destino das suas vidas. O país dos cidadãos não vai aceitar o país pós-troika que lhes estão a preparar. O país dos cidadãos quer uma Europa dos cidadãos, e a Europa que vai a votos é a dos tecnocratas que servem a finança e os grandes grupos.

 

 

 

 

publicado às 19:25


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